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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Maria da Conceição Vilhena

Alice Moderno


Maria da Conceição Vilhena

No passado mês de agosto visitei, em Lisboa, um alfarrabista e vi à venda o livro “Uma mulher pioneira-Ideias, Intervenção e Ação de Alice Moderno”, da autoria de Maria da Conceição Vilhena. Embora já possuísse um exemplar, comprei-o de imediato, pois trata-se de uma raridade publicada pelas Edições Salamandra. Outra marca que encontrei no livro que o torna ainda mais singular é uma dedicatória da autora “À Delegação da ASSP, em Lisboa”, bem como um carimbo daquela instituição.

Não me vou alongar com suposições acerca do que terá ocorrido para que o livro estivesse à venda, vou sim dar a conhecer um pouco a mulher que tirou Alice Moderno do esquecimento através dos artigos e livros que escreveu sobre a mesma, Maria da Conceição Vilhena.

Maria da Conceição Vilhena que nasceu em 1927 em Santiago do Cacém, depois de ter frequentado a escola primária na sua terra natal, concluiu o Magistério Primário, em 1948, em Évora, licenciou-se em Filologia Românica, em 1965, na Faculdade de Letras de Lisboa e, em 1975, doutorou-se pela Universidade da Sorbonne.

Foi professora em várias universidades, entre as quais a dos Açores, e é autora de inúmeros trabalhos sobre linguística, literatura, etnografia e história, entre os quais vários artigos e três livros sobre Alice Moderno, como o já citado, “Alice Moderno: a mulher e a Obra” e “Joaquim de Araújo Diálogo Epistolar com Alice Moderno”.

Sobre a sua relação com os animais, Maria da Conceição Vilhena confessou ao jornal Açoriano Oriental, em 1988, que defendia uma posição idêntica à de Alice Moderno que considerava que “o animal é necessário na vida do homem, que o deve utilizar, mas não sentir prazer em o maltratar, já que o animal vive sem o homem e o homem não consegue viver sem o animal”.

Na mesma reportagem, Maria da Conceição Vilhena recordou que “para Alice Moderno os animais eram nossos irmãos inferiores” e que havia necessidade de “chamar a atenção das populações para os direitos dos animais”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31374, 7 de novembro de 2017, p.16)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente


11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente

“Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes” (Alice Moderno)
Açoriana pelo coração, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de agosto de 1867, e viveu primeiro na Terceira e depois em São Miguel, onde faleceu a 20 de fevereiro de 1946.
Para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, Alice Moderno foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Cento e cinquenta anos depois do seu nascimento não esquecemos a sua luta que ainda hoje faz todo o sentido e não foi em vão, pois a sua obra ainda hoje é reconhecida e o seu labor serve de inspiração a quem hoje continua a trabalhar para uns Açores melhores para todos.
Não esquecemos a sua desilusão face às promessas não cumpridas pelos republicanos na Primeira República, não esquecemos que não se iludiu com a ditadura do Estado Novo e não podemos ignorar a hipocrisia dos políticos surgidos após o 25 de abril de 1974 que lhe concederam, em 2014, a título póstumo, a insígnia autonómica de mérito cívico mas que não respeitaram o definido no seu testamento. Com efeito, no dia 31 de janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
O Estado Novo embora não tenha cumprido na íntegra as aspirações de Alice Moderno, construiu as instalações e garantiu, nos primeiros tempos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e com a colaboração da Junta Geral, a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.
A “democracia” acabou com tudo. Ainda dizem que o Estado é pessoa de bem!
Pico da Pedra, 11 de agosto de 2017
Teófilo Braga

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Terceira Morte



A terceira morte de Alice Moderno

Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.

Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.

A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:

“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”

A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.

Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.

Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Recordando Alice Moderno

No dia 20 de fevereiro de 1946 faleceu Alice Moderno, feminista e defensora dos animais. Em sua memória divulgamos um texto seu publicado por ocasião do segundo aniversário da proclamação da República.


Jornal "A República, 5 de outubro de 1912)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Joaquim de Araújo, Alice Moderno e Antero de Quental



Joaquim de Araújo, Alice Moderno e Antero de Quental

Joaquim António Araújo e Castro nasceu, em Penafiel, no dia 16 de julho de 1858 e faleceu na Casa de Saúde do Telhal, em Lisboa, a 11 de maio de 1917.

Joaquim de Araújo foi Cônsul de Portugal em Génova, onde exerceu uma atividade cultural de relevo a nível internacional, tendo divulgado em vários países os maiores escritores portugueses, como o Padre António Vieira, Luís de Camões, João de Deus, Almeida Garrett, Eça de Queirós e Antero de Quental.

Joaquim de Araújo que, de acordo com Xavier Coutinho, foi um “bibliógrafo, bibliófilo e escritor benemérito” esteve de algum modo ligado aos Açores, através de Alice Moderno e de Antero de Quental.

No que diz respeito a Alice Moderno, Joaquim de Araújo manteve com ela correspondência e foi seu noivo, tendo estado na ilha de São Miguel, de outubro a dezembro de 1893.

De acordo com Ana Maria Almeida Martins, foi Joaquim de Araújo que pediu a Luís de Magalhães, o organizador do livro “Antero de Quental- In Memoriam” que incluísse um texto de Alice Moderno, alegando que “ela pertencia à melhor sociedade micaelense, era amiga da família Quental e carteara-se com Antero”, omitindo a principal razão, o seu noivado com aquela.

Com pequenas inexatidões o contributo de Joaquim de Araújo para o referido livro intitulado “Ensaio de Bibliografia Anteriana” foi, segundo Ana Martins, “um extraordinário trabalho de investigação” e um “subsídio indispensável para o estudo da vida e obra de Antero”.

Antero de Quental, desde muito cedo, conviveu com Joaquim de Araújo, tendo, segundo este, sido uma das pessoas que o confortou aquando da morte do pai, como se pode ler numa das cartas dirigidas a Alice Moderno: “Foi ele que me acompanhou na noite da morte de meu Pai, beijando as minhas lágrimas como ninguém as beijará mais.”

Ainda sobre a forte ligação entre os dois, pode ler-se numa carta de Joaquim de Araújo a Teófilo Braga: “…nunca pedi dinheiro emprestado a ninguém senão a Antero, que me emprestou três libras quando eu precisava apenas de duas.”

A notícia da morte de Antero para além de surpreender vários dos seus amigos, deixou alguns deles bastante abalados, como foi o caso de Joaquim de Araújo que em carta a Alice Moderno escreveu:

“Quando Antero morreu, eu fiquei numa exasperação extraordinária. Estava eu num hotel no Porto com o J. Dias Ferreira, nessa ocasião; e deixei-o abruptamente. Lembro-me que assobiava ao sair do hotel. Fui à minha pobre casa, de que te falei já. Eu tive sempre um grande espírito económico. Tinha 15 ou 16 libras. Tomei-as e segui num dos comboios: fui a Braga, a Amarante, a Penafiel, a Guimarães. Como a morte do meu grande amigo chocara em toda a parte, todos me falavam do Augusto suicida. Eu fugia. Cheguei a casa quatro dias depois.”

No seu testamento feito em Itália, datado de 24 de agosto de 1903, Joaquim de Araújo voltou a mostrar a sua ligação a Antero. Assim, entre os legatários figuraram Teófilo Braga e Ana Quental, irmã de Antero de Quental.

A Teófilo Braga, Joaquim de Araújo deixou “seis volumes dos mais preciosos” que possuía, sendo os restantes para a Biblioteca de São Marcos de Veneza, ficando Ana Quental com todos os seus objetos de prata.

Teófilo Soares de Braga
(Correio dos Açores, 31120, 4 de janeiro de 2017, p. 16)