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quarta-feira, 29 de junho de 2016

ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1


ALICE MODERNO E A EDUCAÇÃO - 1

“A verdade é que somos todos iguais. Iguais no nascimento, pelo sofrimento, e perante a morte. O que desnivela os homens é unicamente, mas cumpre dizê-lo inexoravelmente, a diferença de educações. Instruí-vos, educai-vos, e colocar-vos-eis a par dos primeiros entre os vossos semelhantes.”

Sendo o pai de Alice Moderno uma pessoa instável que nunca parava num local, decide, em 1987, sair de Ponta Delgada, primeiro para a Achada de Nordeste, depois para os Fenais da Ajuda e mais tarde para a Lagoa. Alice Moderno, que não se entendia com o pai, decide ficar em Ponta Delgada e para subsistir dá explicações

Segundo a Professora Maria da Conceição Vilhena, a atividade docente, nos primeiros anos, ocupava os dias de Alice Moderno, trabalhando esta de 8 a 14 horas diárias. A docência foi exercida por Alice Moderno durante muitos anos, tendo mais tarde sido substituída por outras, como o comércio, a tipografia, os seguros, etc.

Em 1892, Alice Moderno era um dos oito professores de instrução secundária inscritos na matriz da contribuição industrial de Ponta Delgada.

Em 1907, Alice Moderno dava explicações na Rua do Castilho nº1 como prova o seguinte anúncio publicado a 17 de fevereiro no jornal A Folha: “Alice Moderno leciona instrução primária e línguas portuguesa e francesa”. Sabe-se que também lecionou geografia.

Alice Moderno, para além de professora particular, foi nomeada regente da Escola Móvel de Ponta Delgada, tendo, no dia 15 de outubro de 1913, proferido a alocução inaugural. No seu discurso Alice Moderno elogiou o regime republicano por “procurar extinguir, no feracíssimo solo lusitano, as flores nefastas da ignorância e da superstição” que infelizmente continuam a proliferar nos nossos dias”.

Na ocasião, o jornal República denunciou várias irregularidades no funcionamento das escolas móveis, sendo uma delas o facto de alguns professores das mesmas não terem habilitações.

As escolas móveis que foram criadas pela República para combater o analfabetismo foram contestadas porque limitaram as aprendizagens à alfabetização e porque, segundo António da Nóvoa, davam prioridade nas contratações dos professores aos “amigos republicanos”.

Contra as escolas móveis ergueram a sua voz, a nível nacional, alguns pedagogos portugueses como Álvaro Viena de Lemos (1881-1972), divulgador em Portugal da obra do pedagogo francês Freinet, que escreveu o seguinte: “Vem o Estado republicano. Cria também umas escolas móveis. Mas sob o pretexto, que facilmente colhe na ocasião, da necessidade da propaganda republicana e defesa das instituições, a nomeação dos respetivos professores faz-se, com raras exceções, entre os compadres e bons republicanos com melhores serviços revolucionários”.

Por cá, Alice Moderno, no jornal A Folha, de 26 de outubro de 1913, desmontou as várias acusações de que era alvo nos seguintes termos:”…na parte que me diz respeito uma completa falsidade, atendendo a que sou professora diplomada e me encontro inscrita no Liceu de Ponta Delgada como professora de ensino secundário, existindo na secretaria do mesmo estabelecimento de instrução, numerosos documentos comprovativos não só das minhas habilitações oficiais, mas ainda do trabalho produzido como professora de instrução primária (admissão ao curso dos liceus) e materiais de ensino secundário, na qualidade de professora do mesmo ensino”.

Na próxima semana voltarei ao assunto.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30971, 29 de junho de 2016, p.18)