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quarta-feira, 25 de março de 2015

Maria Evelina de Sousa

      A Pátria, 12 de novembro de 1923

Maria Evelina de Sousa condenada ao esquecimento?

Desconhecemos a razão do desprezo a que sido votada, por parte das mais diversas entidades, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) que foi uma distinta professora primária e jornalista micaelense. Com efeito, não conhecemos nenhuma rua com o seu nome e não recebeu qualquer “condecoração”, nem mesmo a título póstumo.

Nasceu em Ponta Delgada, cidade onde frequentou a Escola Distrital de Habilitação ao Magistério, tendo concluído o curso em 1900 (?) com a classificação de 17 valores.

A partir de 1904 começou a lecionar na Escola de Santa Clara, tendo, quatro anos mais tarde, em 1908, sido responsável pela criação da primeira biblioteca escolar do círculo, iniciativa muito comentada na sociedade micaelense e na comunicação social da altura.

No âmbito do ensino, Maria Evelina de Sousa, procurou introduzir inovações nos Açores, tendo aprendido o método de leitura e escrita, Método Legográfico-Luazes, com a sua autora, a professora, pedagoga e escritora Maria Amália Luazes, que foi a fundadora do Instituto do Professorado Primário Oficial Português, em 1916. Assim, Maria Evelina de Sousa ofereceu-se para explicar, a título gratuito, o método a todos os professores que o quisessem aprender. Foi, também, por sua iniciativa que se realizou em Ponta Delgada uma conferência de  propagando do método de João de Deus.

Em matéria de ensino, ainda durante a monarquia, Maria Evelina de Sousa defendeu que nos estabelecimentos escolares não devia ser permitido o ensino de matéria religiosa, o que veio a acontecer com a implantação da República.

Pouco depois da implantação da República, Maria Evelina de Sousa escreveu uma carta aberta ao Dr. Francisco d’Ataíde Machado de Faria e Maia, presidente da Comissão Administrativa Republicana, onde apresentou um plano de remodelação do ensino primário oficial para a cidade de Ponta Delgada, tendo entre outras medidas defendido a criação de quatro escolas centrais e a criação de uma rede de escolas que deveria incluir “as diferentes associações que, trabalhando isoladamente, têm o mesmo objetivo” e que eram  a Associação Século XX, as Comissões de Beneficiência e Ensino  e a Associação das Filhas de Maria.

Como jornalista é de destacar a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação e direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo sido distribuída a nível nacional. Para além de colaborar no jornal “A Folha”, fundado em 1922 pela sua amiga Alice Moderno, foi, a partir de 12 de maio de 1915, secretária de redação daquele jornal e colaboradora do jornal “Correio dos Açores”, onde publicou alguns artigos de opinião e poesia diversa.

Fez parte da comissão organizadora da Escola Industrial de Rendas de Bilros que funcionou em Ponta Delgada sob a regência da professora D. Hortense de Morais.

No âmbito da defesa dos Animais, foi com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras da criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, em 1911, tendo sido ela a responsável pela redação dos estatutos e mais tarde, criada a associação, assumido vários cargos nos órgãos sociais da mesma.

Foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido homenageada por esta instituição em Agosto de 1912, a Associação de Propaganda Feminista, fundada, em 12 de Maio de 1911, por Ana de Castro Osório, e a Associação Feminina de Propaganda Democrática, criada em 1915 e dissolvida em Junho de 1916, que se identificava com o Partido Democrático e apoiava a ação política de Afonso Costa.

 

Aposentou-se a 13 de Julho de 1940, após trinta e seis anos de bom e efetivo serviço sendo, na altura, professora da Escola Agostinho Machado Bicudo Correia, localizada na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada.

 

Teófilo Braga


(Correio dos Açores, 30589, 25 de março de 2015, p.16)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Os assassinatos do Simba e do cão da louca



Os assassinatos do Simba e do cão da louca

O meu texto de hoje é sobre dois assassinatos de animais distanciados no tempo aproximadamente noventa e dois anos. O caso mais recente diz respeito ao Simba, assim se chamava o cão, que foi morto a tiro por parte de um vizinho da família que dele cuidava e o mais antigo é relativo à morte por envenenamento de um cão pertencente a uma mendiga que viveu em Ponta Delgada, em 1923.

A morte do Simba, para além de ter sido noticiada em toda a comunicação social nacional, tem sido muito comentada nas redes sociais, tendo suscitado um debate onde de um lado estão os defensores dos animais e do outro os que acham que há um exagero nos protestos daqueles.

Muito comentada é uma publicação no “facebook” onde o autor põe em confronto duas petições, uma de apoio às vítimas de violência doméstica com muito poucas assinaturas e a que pede justiça pela morte do Simba com mais de 50 mil assinaturas.

Do meu ponto de vista não devemos condenar quem clama para que seja feita justiça perante crimes cometidos contra animais irracionais, o que está mal é que quem critica os defensores dos animais, quando não é confesso ou encoberto adepto da tortura daqueles, não faça o mínimo esforço para fazer ouvir a sua voz perante as injustiças cometidas sobre os humanos mais fracos e indefesos. Considero que o que existem são causas e não há causas mais nobres do que outras, além disso qualquer ser humano compassivo pode muito bem abraçar mais do que uma delas.

Quem está envolvido na luta para que seja feita justiça no caso da morte do Simba está, não temos dúvidas, a pensar na família que o acolhia que está a sofrer, como podemos ver pelo depoimento que a seguir se transcreve:
“Ontem perdi o meu melhor amigo nesta vida, perdi um vizinho que ate permitia que me tirasse água de um poço e que por duas vezes o esvaziou porque se esquecia da rega ligada, perdi parte da minha mulher que não consigo consolar, perdi a minha fé no homem, ganhei um novo folego como crente em Deus porque só Ele me apertou e tranquilizou ontem enquanto soluçava a enterrar o meu cão rodeado dos meus cavalos que lhe vieram prestar uma ultima homenagem e do meu irmão também ele destroçado por ver o seu caçula em tamanha aflição.”
A 25 de março de 1923, quem passou na baixa de Ponta Delgada teve a oportunidade de assistir ao seguinte: uma “desgraçada louca” que vendo o seu cão perdigueiro, que fora envenenado, a contorcer-se em agonias pareceu “ter readquirido toda a lucidez de espírito, acarinhava-o em extremos de afecto, falava-lhe, friccionava-o, lavava-lhe a boca, limpava-lhe a língua chorando, chorando, angustiada por não o poder salvar”.

Depois de tentar, em vão, arranjar a salvação nas várias farmácias o animal, a única pessoa da sua família, como costumava dizer, acabou por morrer no cais da Alfândega e ela perante quem o queria tirar “defendeu-se furiosamente, ameaçando com dentadas. – E chorava interminavelmente, desoladamente, sobre o cadáver do seu único amigo no mundo”.

O redator do Correio dos Açores terminou o seu texto publicado, a 28 de março de 1923, com uma frase que ainda hoje faz todo o sentido: “Lembrando-nos da forma como tanta gente trata os animais, perguntamos se aquela desgraçada será realmente louca…”

Uma leitora do Correio dos Açores lembrou-se de sugerir ao jornal uma recolha de fundos com o objetivo de “comprar um cãozinho para ser oferecido à desditosa louca, que assim continuará a ser protegida e querida por um novo amigo, como o era pelo seu velho companheiro, já que pelos homens é tão abandonada”.

Alice Moderno foi uma de entre as várias pessoas que deram o seu contributo monetário, tendo em carta dirigida ao diretor do jornal que vimos citando sugerido não ser necessário a compra de um cão pois “há tantos que aí andam abandonados, coitaditos, quase mortos de fome e frio, revolvendo todas as manhãs, em busca de um osso ou de uma côdea de pão, os caixões de lixo, onde não raramente encontram a morte”.

Alice Moderno na sua carta, escreveu que a causa da proteção dos animais continuava a ser tão mal compreendida pela maior parte da população, acrescento que hoje também  o é pela generalidade dos políticos até perceberem que a causa também lhes poderá dar ou tirar votos, o que não tardará muito.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, nº 30563, 18 de março de 2015, p.14)